Banho de balde

“… banho de balde é, também, um ritual. É encarar aquele espelho d’água que te reflete e se reflete, que te encara de volta e te leva a um abismo sem fim de reflexões sobre a vida, a morte e, é claro, as contas a pagar. Porque quem toma banho de balde, vai por mim, tem muita conta a pagar.”

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Eu acho engraçado que, em pleno ano 2019, tomar banho de balde seja uma prática ainda comum (ou o é apenas em meu universo particular, vá saber). Abrir a caixa d’água, pegar o canecão, transferir a água para o balde, depois levá-lo ao banheiro e, enfim, tomar o merecido banho. Parece trabalhoso, eu sei, e é, de fato, mas o banho de balde é, por assim dizer, um ritual, um misto de lavação do corpo e da alma que só quem passa por ele entende o que significa tomar um bom banho de balde. Continue Lendo “Banho de balde”

Surdez

“O som dos metais, dos passos apressados, das buzinas e sirenes na cidade, a gritaria dos vendedores, o apito dos trens e metrôs, essa balbúrdia altissonante e constante que retumba por todos os cantos da cidade. Como se pode viver com isso? Como se pode existir com isso?”

Uma vez, uma amiga com quem eu compartilhava um estágio questionou-me o fato de eu dizer que eu sou surdo. Segundo ela, eu “não sou” surdo, eu “estou” surdo. Eu entendi seu ponto e, de certo modo, até concordo com ele. Todavia, parece-me que ela não foi capaz de entender o meu, o fato de que, para mim, a surdez sempre foi algo mais do que mera deficiência, mas algo que determinou profundamente características que, hoje, marcam minha personalidade.

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Havia um corpo jogado na rua

“A verdade é que aquele corpo não era só um corpo (…) E se aquele corpo era a expressão física de nosso espírito, não é preciso dizer muito para entender o que aquilo representa.”

Havia um corpo jogado na rua.

Ele apareceu lá, sem ninguém ver, nem saber de onde veio. Simplesmente apareceu jogado na rua tal qual um trapo velho do qual alguém se desfez depois de muito uso. Aquele corpo estava jogado na rua e, aparentemente, ninguém se deu conta disso. Ele estava ali, jogado, estatelado no chão, indigente e, de certo modo, indigesto. Era um corpo e ele estava jogado na rua.

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Textículos aleatórios

Textículos aleatórios publicados em alguma rede social alheia.

Perguntei para o tempo quanto tempo o tempo tem. “Todo o tempo do mundo”, ele disse. Quanto tempo tem o mundo? “Todo o tempo que o tempo tem”.

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Prosopagnosia

De quem é este rosto que me olha e me encara, que tenta entender quem diabos é esse que o observa?

But I’m a creep (Mas eu sou insignificante)
I’m a weirdo (Eu sou um esquisitão)
What the hell am I doing here? (Que diabos estou fazendo aqui)
I don’t belong here (Eu não pertenço a este lugar)
I don’t belong here (Eu não pertenço a este lugar)


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A volatilidade do pensamento descartiano

(…) tudo é volátil e relativo a partir do momento em que não existe, na verdade, consenso algum para se afirmar que algo é algo. (…) Eu existo, sim. Mas, e depois?

Ao pensar na celébre frase de René Descartes, “penso, logo existo”, veio-me à mente o seguinte questionamento sobre nossa existência: se penso, logo existo, então o que existe é o pensamento e não o próprio ser pensante, aquele que pensa o pensamento. O pensamento estaria, portanto, num nível de existência em que nós, criaturas pensantes, não estaríamos. Nós habitaríamos o reino do imaginável, do “pensável”.

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Da religião e sua luta contra a natureza humana

Aquela história de que o maior inimigo do homem é ele mesmo se encaixa bem aqui, mas com uma pequena adaptação: o maior inimigo do crente é sua mente.

O ser humano é falho por natureza e isso tanto biologicamente como, mais importante aqui, moralmente. Talvez por consciência de sua natureza errante, o homem sempre tenha procurado alguma coisa que lhe desse uma “essência mais pura”, mesmo que nada disso fizesse sentido num olhar mais profundo. Vive-se querendo justificar os próprios erros quase que numa tentativa inconsciente de nos devolver a inocência de nossa infância. Mas, não é bem assim que as coisas são. Continue Lendo “Da religião e sua luta contra a natureza humana”

Como eu sobrevivi ao bullying

O bullying pretende nos calar e é por isso que devemos gritar, explodir nossos pulmões e mostrar que nós estamos aqui, nós existimos, nós somos alguém e temos sentimentos também.

Eu tinha entre 6 e 7 anos quando tudo aconteceu. Na época, estava na primeira série do ensino fundamental, hoje chamada de 2º ano do EF. Até onde me lembro, eu era uma criança comum, gostava de estudar, era sociável. Obviamente, eu não tinha vivido muito do mundo para saber que as pessoas podem ser más, que elas podem reagir com hostilidade diante daquilo que lhes é diferente. Do mesmo modo, não havia vivido o suficiente para entender que, nem sempre, as pessoas são más por vontade própria, mas por medo, medo de encarar a realidade.

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Escoliótico

Por mais irônico que pareça, é na dor que tenho minhas melhores ideias, é na dor que minha mente se torna mais criatíva, crítica e analítica. Eu gostaria muito de não sentir dor todos os dias, (…) mas me pergunto como seria minha vida sem isso.

As curvas de meu corpo expõem os percalços de minha vida. Não são curvas de um corpo saudável e definido. São curvas de um corpo mal fabricado e ferido. Minhas curvas não me causam encanto nem contemplação, mas antes, dor e reflexão. Sim, reflexão porque, na dor, minha mente procura qualquer ópio que a faça se distrair da realidade doída de um corpo com curvas demais.

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A superficialidade das relações humanas em tempos de realidade virtual

“A internet nos mascara e, de certo modo, nos esconde. Impede que as pessoas nos conheçam de fato, pois, nesse universo, podemos ser o que quisermos ser.”

Eu cresci em uma época em que computadores eram um sonho distante para pessoas que, como eu, faziam parte de uma família que dependia do salário mínimo. Eu venho de uma era pré-internet, pré-computadores e smartphones. Nos anos 1990, laptops, tablets, smartphones com tela sensível ao toque, tudo isso e muito mais era uma realidade quase utópica, vista somente em filmes de ficção científica. Exclua-se, talvez, os laptops que, de fato, já existiam em 1990, mas custavam os dois rins e um coração. Ou seja, era um artigo de luxo voltado somente aos mais abastados. Continue Lendo “A superficialidade das relações humanas em tempos de realidade virtual”