Banho de balde

“… banho de balde é, também, um ritual. É encarar aquele espelho d’água que te reflete e se reflete, que te encara de volta e te leva a um abismo sem fim de reflexões sobre a vida, a morte e, é claro, as contas a pagar. Porque quem toma banho de balde, vai por mim, tem muita conta a pagar.”

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Eu acho engraçado que, em pleno ano 2019, tomar banho de balde seja uma prática ainda comum (ou o é apenas em meu universo particular, vá saber). Abrir a caixa d’água, pegar o canecão, transferir a água para o balde, depois levá-lo ao banheiro e, enfim, tomar o merecido banho. Parece trabalhoso, eu sei, e é, de fato, mas o banho de balde é, por assim dizer, um ritual, um misto de lavação do corpo e da alma que só quem passa por ele entende o que significa tomar um bom banho de balde. Continue Lendo “Banho de balde”

Surdez

“O som dos metais, dos passos apressados, das buzinas e sirenes na cidade, a gritaria dos vendedores, o apito dos trens e metrôs, essa balbúrdia altissonante e constante que retumba por todos os cantos da cidade. Como se pode viver com isso? Como se pode existir com isso?”

Uma vez, uma amiga com quem eu compartilhava um estágio questionou-me o fato de eu dizer que eu sou surdo. Segundo ela, eu “não sou” surdo, eu “estou” surdo. Eu entendi seu ponto e, de certo modo, até concordo com ele. Todavia, parece-me que ela não foi capaz de entender o meu, o fato de que, para mim, a surdez sempre foi algo mais do que mera deficiência, mas algo que determinou profundamente características que, hoje, marcam minha personalidade.

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A superficialidade das relações humanas em tempos de realidade virtual

“A internet nos mascara e, de certo modo, nos esconde. Impede que as pessoas nos conheçam de fato, pois, nesse universo, podemos ser o que quisermos ser.”

Eu cresci em uma época em que computadores eram um sonho distante para pessoas que, como eu, faziam parte de uma família que dependia do salário mínimo. Eu venho de uma era pré-internet, pré-computadores e smartphones. Nos anos 1990, laptops, tablets, smartphones com tela sensível ao toque, tudo isso e muito mais era uma realidade quase utópica, vista somente em filmes de ficção científica. Exclua-se, talvez, os laptops que, de fato, já existiam em 1990, mas custavam os dois rins e um coração. Ou seja, era um artigo de luxo voltado somente aos mais abastados. Continue Lendo “A superficialidade das relações humanas em tempos de realidade virtual”

Hoje eu vi o céu

“A vida não muda quando você quer e também não muda quando você não quer.”

Daqui alguns dias, fará um ano que recriei o Epitáfios à Parte. Minha ideia em repaginar o EaP se sustentava na premissa de que eu mesmo precisava de uma repaginada, coisa que nunca aconteceu. A questão é que quase um ano se passou e as coisas continuam do mesmo jeito e isso é estranho. Estranho, porque se fala muito da mutabilidade da vida como se isso fosse uma regra inquestionável, mas não é. A vida não muda quando você quer e também não muda quando você não quer. Na verdade, é até difícil dizer ou prever quando haverá alguma mudança significativa na vida porque isso me parece bem aleatório. Continue Lendo “Hoje eu vi o céu”

Solitude

Sobre estar só e sentir-se só.

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Imagem da internet, disponível em Google Images.

Para quem sempre a solidão fora uma amiga, estar só não é algo ruim. Na verdade, poder-se-ia dizer que os momentos de solidão são aqueles em que melhor se está consigo mesmo, é quando se encontra a paz perdida nesse mundo caótico e passa a se sentir em harmonia consigo e com o mundo. Continue Lendo “Solitude”

Eu, Pedro H., 27 anos, desempregado e desiludido

Sobre aquele sentimento de incompetência que assola multidões.

Epitáfios à Parte. ©2016. Todos os direitos reservados.
Foto por: Pedro Henrique. Todos os direitos reservados.

Nunca parei muito tempo para pensar na minha vida. Aliás, nunca pensei muito na minha vida. Eu venho de uma geração que cresceu com a ideia de que “podemos ser o que quisermos”. Doce engano. A realidade se mostrou mais dura do que o esperado e, no fim, terminei sem muita coisa da qual pudesse me orgulhar. Continue Lendo “Eu, Pedro H., 27 anos, desempregado e desiludido”