A volatilidade do pensamento descartiano

(…) tudo é volátil e relativo a partir do momento em que não existe, na verdade, consenso algum para se afirmar que algo é algo. (…) Eu existo, sim. Mas, e depois?

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René Descartes citação cogito ergo sum

Ao pensar na celébre frase de René Descartes, “penso, logo existo”, veio-me à mente o seguinte questionamento sobre nossa existência: se penso, logo existo, então o que existe é o pensamento e não o próprio ser pensante, aquele que pensa o pensamento. O pensamento estaria, portanto, num nível de existência em que nós, criaturas pensantes, não estaríamos. Nós habitaríamos o reino do imaginável, do “pensável”.

Contudo, Descartes vai mais longe e afirma que:

1º: é certo que há o pensamento;

2º: é certo que há um eu que pensa;

3º: é certo que Deus exista.

Com base nessas três premissas, pode-se afirmar que: eu penso, eu existo e Deus existe. Porém, isso não me satisfaz porque me parecem afirmações um tanto carentes de explicação, ou melhor, de justificação. Busco, portanto, um meio de questioná-las e, conseguindo isso, surge uma pergunta: o que existe primeiro, o pensamento ou aquele que pensa? Pergunto isso, porque cada resposta resulta numa consequência diferente.

Se antes de eu existir houver o pensamento, eu não existo como ser, isto é, autonomamente, afinal, foi preciso que se pensasse em mim para que eu existisse. Eu, portanto, não tenho poder sobre mim mesmo já que dependo do pensamento para que minha existência se consuma, para que minhas vontades se satisfaçam. Em outros termos, sou apenas fruto de uma mente delirante. Nessa realidade, não é difícil concluir que o livre-arbítrio não exista. No entanto, se antes de o pensamento existir, eu existo, logo eu sou deus. Por quê? Porque todas as coisas girarão em torno de meu próprio pensamento. O mundo será reflexo daquilo que penso e imagino. Eu, literalmente, serei o centro de todas as coisas.

Temos, até aqui, duas possibilidades: eu sou o pensamento ou eu sou o ser que pensa. Isso não responde a uma questão (baseada na terceira premissa de Descartes): em que situação deus existe? Diante dessas possibilidades, diria que ou deus não existe, ou Ele existe e é o próprio pensamento, ou eu sou o próprio deus. Como assim? Alegando que deus não exista, trocamos uma dúvida universal por uma solução simples: deus não existe. Com isso, afirmamos, ao mesmo tempo e paradoxalmente, que deus existe, anulando todo o argumento. Ao dizer que Ele existe e é o próprio pensamento, continuo reiterando sua existência e mais, seu poder. Todavia, ao dizer que eu sou o próprio deus, nego sua existência ao mesmo tempo em que a pluralizo. Pluralizo no sentido de que, se eu sou deus e existem vários “eus”, logo, existem vários deuses.

Todas essas possibilidades me levariam à fogueira se fossem a público há alguns séculos. E isso traz à tona um questionamento sobre a moral social, em especial em sociedades com grande influência religiosa. Numa sociedade fundamentalmente teísta, em que tudo se baseia em mandamentos divinos e onde tudo está ligado às ordens do além, ao se questionar a existência de deus, questiona-se também a existência da moral. Logo, se não há um deus, não há portanto, moral. E se a moral não existe, como posso dizer qual é a certa?

Com isso, uma questão que lida primordialmente com a natureza do ser alcança um nível de complexidade e abrangência muito maior já que, de certa forma, interfere também na constituição própria sociedade. Desse modo, o que é certo e o que é errado perdem seu sentido uma vez que o norte que serve de guia para esses conceitos é tão impreciso quanto algo poderia ser. Isso é ilustrado de forma bastante elucidativa no livro “O Estrangeiro”, de Albert Camus, onde a moral coletiva se choca com a moral do protagonista – Mersault – e gera um impasse que, apesar de inconclusivo, só ressalta como nada, de fato, tem um fundamento inabalável. No livro, paira a todo o momento a pergunta: onde está a real imoralidade da história? Em Mersault ou naqueles que o julgam? Como decidir quem está certo a partir do momento em que tudo é questionável? Mas, voltando à questão central deste texto, eu existo, ou é o pensamento sobre mim que existe?

Descartes deixa um vácuo muito incômodo nessa questão. Mas, o que me intriga é por que, segundo ele, deus existe? Consigo entender que o pensamento existe e, por isso mesmo, alguém existe. Mas, não consigo compreender por que, a partir disso, ele afirma que deus exista. Ou será que é o PENSAMENTO SOBRE DEUS que existe? É como disse antes: se penso, logo existo, aquilo que eu penso se torna real a partir do momento em que o penso. Porém, daí surge outra dúvida. Pensamos, isto é um fato, mas o que é o pensamento? E mais, sobre o que pensamos? E o que são, realmente, as coisas em que pensamos? São figuras representativas, metáforas, ou apenas a coisa em si?

Não consigo encontrar resposta a essas perguntas. O que me surge são possibilidades de respostas, mas possibilidades que não respondem efetivamente a essas dúvidas. Quando penso numa mesa, eu não penso na mesa em si, mas na imagem mental que tenho sobre o objeto que é representado pelo signo mesa. Assim sendo, o que penso não é o objeto em si, mas a imagem mental que tenho dele. O objeto não existe, não enquanto pensamento. Entretanto, se digo que a partir do momento em que penso, aquilo que penso se torna real, logo a mesa em minha mente existe não precisando do objeto físico para que sua existência se torne real.

É a partir disso que chego a conclusão de que existem, na verdade, duas realidades: uma concreta e sensível, percebida por nossos sentidos biológicos; e uma abstrata e efêmera que reina no universo do pensamento. Porém, ainda que falemos de realidade concreta e realidade abstrata, a primeira se torna um tanto mais questionável pelo fato de que cada pessoa percebe o mundo de forma diferente, logo, existirão milhares de realidades concretas que se anularão, ou não. Na possibilidade menos complexa, chegar-se-á a um consenso em que se determinará o que é cada objeto e qual seu signo correspondente. Mas, aí eu me pergunto até onde vai a certeza de cada consenso? Veja bem, se eu disser que uma mesa é um objeto que possui quatro pedaços de madeira cortados verticalmente, colados a uma placa, também de madeira, formando um ângulo de 90 graus entre o pedaço e a placa de madeira, eu posso dizer, com toda a certeza, que um banco é uma mesa, que uma estante de uma prateleira é uma mesa, ad infinitum.

O que quero que se entenda, é que tudo é volátil e relativo a partir do momento em que não existe, na verdade, consenso algum para se afirmar que algo é algo. Logo, se eu digo que “penso, logo existo”, precisa-se definir a partir de que eu posso afirmar que eu existo, ou que o próprio deus exista? Eu existo, sim. Mas, e depois? Nada do que se pensa é certo já que, ao meu redor, existe uma infinidade de pensamentos que surgem a todo momento mudando a realidade coletiva e pessoal de cada um. Talvez eu realmente exista, talvez não. O que é fato é que algo existe, o que, não se sabe.


Texto publicado originalmente no antigo caderno discente do blog de Teoria da Literatura, Dubito Ergo Sum, organizado pelo professor-doutor Gustavo Bernardo. Texto revisto e corrigido em 1 de julho de 2018.

Autor: Pedro H.C. de Sousa

Uma sombra daquilo que um dia eu fui.

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