A superficialidade das relações humanas em tempos de realidade virtual

“A internet nos mascara e, de certo modo, nos esconde. Impede que as pessoas nos conheçam de fato, pois, nesse universo, podemos ser o que quisermos ser.”

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Eu cresci em uma época em que computadores eram um sonho distante para pessoas que, como eu, faziam parte de uma família que dependia do salário mínimo. Eu venho de uma era pré-internet, pré-computadores e smartphones. Nos anos 1990, laptops, tablets, smartphones com tela sensível ao toque, tudo isso e muito mais era uma realidade quase utópica, vista somente em filmes de ficção científica. Exclua-se, talvez, os laptops que, de fato, já existiam em 1990, mas custavam os dois rins e um coração. Ou seja, era um artigo de luxo voltado somente aos mais abastados.

Durante a década de 1990 e parte da década de 2000, se você quisesse falar com alguém, só havia três formas para isso: telefone, carta ou ir à casa desse alguém. A vida era assim. Como a tecnologia ainda era muito cara no início dos anos 2000, não restavam muitas opções além dessas. Se você quisesse conversar com seus amigos, teria que tirar a bunda do sofá. Muita coisa mudou desde então. A tecnologia finalmente se popularizou e se expandiu de forma tão rápida que hoje se fala em analfabetismo tecnológico como um problema social. E isso é importante, é claro, pois o bem estar de uma sociedade se mede também pelo grau de aproveitamento que a população tem de todos os recursos que ela pode oferecer.

Mas – sempre existe um mas – se por um lado, nos tornamos mais integrados tecnologicamente, por outro, nos tornamos mais distantes uns dos outros. Há vinte anos, as coisas funcionavam num ritmo mais lento e, de certa forma, tinha-se um tempo a mais para digerir e assimilar todas as informações que nossa realidade nos oferecia. Nossas conversas eram mais longas e profundas porque nós tínhamos o privilégio do tempo, um tempo que vinha não pela falta de coisas a fazer, mas pelo fato de que ele nos permitia que, na medida do possível, pudéssemos fazer tudo com relativa calma. Hoje, porém, vivemos num fluxo de informações tão grande e intenso que temos pouco ou nenhum tempo para saborear a realidade. E digo saborear em todos os sentidos, bons ou ruins. Nossas alegrias são rápidas do mesmo modo que nossas tristezas também. No meio de todo esse excesso de informações, parece faltar tempo para se permitir sentir, sofrer, chorar e rir, extravasar. Sentir virou um luxo, um artigo em extinção.

E se você acha que isso não é um sintoma de algo maior, sugiro que você reveja sua própria realidade, pois se a falta de tempo tem sido um problema de nossa realidade, até setores mais exclusivos tem notado a influência dela. Recentemente, o diretor de filmes consagrados como a Trilogia Cavaleiro das Trevas (Batman) e A Origem, Christopher Nolan, declarou publicamente que um dos fatores que tornam sua trilogia do Batman de Christian Bale melhor do que os filmes atuais do Universo DC é fato de que, em sua época, havia mais tempo para se dedicar às suas produções com mais calma e, consequentemente, maior cuidado. Citando suas palavras, O tempo é um privilégio e um luxo que os cineastas não têm mais hoje em dia“.

A rapidez com que tudo tem ocorrido em nossos dias nos tirou a espontaneidade, o tempo para sorrir e chorar, a delicadeza de estar com os amigos e jogar conversa fora como se nada mais houvesse. Não há mais espaço para isso. Se quero falar com alguém, pego o celular e mando uma mensagem no WhatsApp. Não há mais memória, pois tudo o que fazemos vai para o Facebook e Instagram. Não há mais suspense e surpresa, pois pode-se saber de tudo através do Twitter. Se quero saber como é a vida de alguém, sigo-o no Snapchat, ou nos Stories da vida. A intimidade acabou assim como a privacidade e todas aquelas coisas que tornavam a convivência humana mais simples, cúmplice e agradável.

Não, não nego que a tecnologia nos trouxe muitas coisas boas. Eu seria hipócrita se fizesse isso. O simples fato de estar aqui, no WordPress, compartilhando minhas ideias com quem me lê é uma das provas de que a tecnologia nos trouxe muitas coisas boas. Mas, a pergunta é: a que preço? Qual o preço estamos pagando para vivermos todos esses avanços? O que temos dado em troca de informação constante e em tempo real, 24h por dia? Perfis com milhares de seguidores dos quais se conhece não muito mais do que 3%? Uma explosão de felicidade e sucesso nas redes sociais quando a realidade é o oposto disso? Debates acalorados na internet, brigando feito loucos por ideias absurdas quando, no mundo real, não passamos de pintinhos indefesos?

A internet nos mascara e, de certo modo, nos esconde. Impede que as pessoas nos conheçam de verdade, pois, nesse universo, podemos ser o que quisermos ser mesmo que aquilo que nós dissemos que somos não corresponda ao que somos de fato. Nos tornamos intolerantes e agressivos. Uma frieza e falta de sensibilidade nos toma gradualmente, as pessoas se tornam pequenos objetos de consumo cuja vida exposta nas redes sociais queríamos que fosse a nossa. Vivemos de curtir fotos de bichinhos fofinhos, comidas, pessoas na praia e em baladas. Nos tornamos melhores amigos na internet, mas nos surpreendemos quando, meses depois, descobrimos que esses melhores amigos casaram, tiveram filhos, se divorciaram e nós sequer sabíamos disso, pois o que víamos na web era outra coisa.

Eu briguei com um amigo por causa de um trailer de filme, quando, no mundo real, não consigo ver onde isso seria possível. Briguei com minhas melhores amigas de faculdade porque, num dado momento de nossas vidas, simplesmente deixamos de nos entender e os mal-entendidos sobraram livremente. Tudo tem acontecido tão rápido, tão intenso que não temos nos permitido viver a realidade integralmente porque não há tempo para isso. Quando começo a digerir a tragédia da morte de uma pessoa querida, logo surge alguma notícia mais urgente e preciso me desfazer de todo aquele sentimento de antes para poder acompanhar esse anacronismo de informações. Não há tempo para viver.

Nós precisamos de tempo.

Autor: Pedro H.C. de Sousa

Uma sombra daquilo que um dia eu fui.

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