Hoje eu vi o céu

“A vida não muda quando você quer e também não muda quando você não quer.”

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Daqui alguns dias, fará um ano que recriei o Epitáfios à Parte. Minha ideia em repaginar o EaP se sustentava na premissa de que eu mesmo precisava de uma repaginada, coisa que nunca aconteceu. A questão é que quase um ano se passou e as coisas continuam do mesmo jeito e isso é estranho. Estranho, porque se fala muito da mutabilidade da vida como se isso fosse uma regra inquestionável, mas não é. A vida não muda quando você quer e também não muda quando você não quer. Na verdade, é até difícil dizer ou prever quando haverá alguma mudança significativa na vida porque isso me parece bem aleatório.

Eu tinha 27 anos quando escrevei esse texto aqui. 27 anos e, na época, confesso que flertava com alguns pensamentos suicidas. Minha vida sempre foi um pouco estranha, cheia de altos e baixos (especialmente baixos), e isso me deu uma perspectiva muito imprevisível de tudo. Nunca criei grandes expectativas sobre nada porque nunca me foi permitido esperar muito de qualquer coisa e isso me tornou uma pessoa, de certo modo, pessimista, ainda que me veja mais como um realista ao extremo. Espero menos de tudo para me surpreender quando vier mais do que eu esperava.

Cínico? Talvez. Isso diminuiu o número de calos nas mãos, pés e joelhos. Diminuiu as dores das frustrações constantes, o sofrimento proveniente do confronto com o mundo e a realidade. Cada um luta com as armas que tem. Não digo que minha vida é exemplar porque, sendo bem franco, me acho um merdinha esnobe às vezes. Mas é a minha vida ainda que não seja a vida que eu sonhei ou quis. Faço dela o que quero, quando quero mesmo que, aos olhos dos outros, eu não faça as melhores escolhas.

Tenho 28 anos, não tenho perspectivas de um futuro muito bem sucedido, vivo com minha mãe, tenho uma penca de problemas de saúde, não trabalho, não terminei sequer a faculdade, não tenho muito o que comemorar. Mas, por ironia do destino, eu ainda estou aqui. Apesar dos desejos constantes de desaparecer, sumir, deixar de existir, a vida não decidiu deixar meu corpo ainda. Não sei, sinceramente, o que fazer de minha vida, não sei como mudá-la mas, hoje, eu não me importo com isso.

Hoje, pela primeira vez depois de muito tempo, olhei pela janela de meu quarto e vi o céu. E não digo “ver o céu” como todo mundo diz, mas “ver o céu” para além do céu em si. Vi as nuvens serem arrastadas pela força invisível do vento, vi o azul mesclado com o branco das nuvens irradiando a luz do sol. De repente, senti-me como o Super-man ao recuperar as forças quando exposto à luz solar. De repente, me senti vivo e isso foi bom porque é algo que não sentia há muito tempo. No meu pequeno quarto escuro, eu reencontrei aquele resquício de vontade de viver que havia esquecido dentro de mim e, por hora, isso é o que me basta.

Autor: Pedro H.C. de Sousa

Uma sombra daquilo que um dia eu fui.

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